11.5.12

10 anos sem lutzenberger


No dia 05 de abril, reunidos na cerimônia de homenagem e despedida a Rosa Teixeira Carneiro, 76 anos, esposa e companheira de Augusto Carneiro, braço direito e maior apoiador de José Antônio Lutzenberger, estiveram presentes representantes de várias gerações do movimento ecológico gaúcho. A ocasião não foi só marcada pela tristeza da despedida e pelo agradecimento a mais um membro daquele grupo que iniciou um trabalho revolucionário e que alcançou reconhecimento em todo o Brasil. Foi também um momento de retomada para muitas pessoas, que num retrospecto buscaram inspiração no passado e na coragem dos pioneiros, como o próprio Augusto Carneiro, que no dia 31 de dezembro completará 90 anos de idade e estava ali se despedindo da companheira de uma vida e de muitas aventuras.
Na próxima segunda-feira, 14 de maio, lembraremos os 10 anos da morte de Lutzenberger, o maior ecologista que o Brasil já teve, e que partiu em maio de 2002 deixando como herança muitos admiradores e dois grandes empreendimentos: a Fundação Gaia, ONG criada por ele em 1987, com uma sede rural de 30 hectares em Pantano Grande, a 120 km de Porto Alegre, e a Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico, empresa já consolidada e de faturamento milionário, ligada ao setor de celulose, com sede em Eldorado do Sul e filiais na Bahia e em Santa Catarina.
A sede rural da Fundação Gaia, o Rincão Gaia, foi o grande sonho realizado de Lutzenberger, tornado possível graças ao apoio incondicional de sua então parceira Elizabeth Paula Renck, enfermeira e professora que largou uma carreira promissora no Hospital de Clínicas de Porto Alegre para se dedicar a concretização do sonho do companheiro.
Como em todo gênio, algumas características do ecologista eram muito marcantes, o conhecimento acumulado ao longo de sua existência e a tranquilidade financeira da qual desfrutava nos últimos anos, não o tornaram arrogante e nem lhe tiraram a simplicidade. Compartilhava tudo com todos e sua generosidade era reconhecida entre aqueles que para ele trabalhavam. Quando não estava viajando, proferindo suas conferências mundo afora, ou recebendo mais uma de tantas homenagens, reinava absoluto nas paisagens do Rincão Gaia, onde, ao invés de cetro e coroa, vestia camisas simples e sandálias de couro, sem se importar em expor os fungos que cultivava nas unhas dos pés, sobre os quais, dependendo do humor, sabia fazer piada ou também discursar em verdadeiras e cativantes aulas de biologia.
Para manter e aperfeiçoar o Rincão Gaia, num gesto de total desprendimento e altruísmo, destinava para o local quase que a totalidade dos recursos que ganhava com o pró-labore da empresa que criou.  Seu objetivo era transformar o sítio não só em exemplo de recuperação de áreas degradadas com belíssimas paisagens e rica biodiversidade, mas estabelecer ali uma Ecovila que demonstrasse na prática a harmonia da convivência entre seres humanos e natureza, com criação de animais e produção de alimentos orgânicos, respeitando os princípios da agroecologia. E ele provaria que seria possível caso tivesse tido tempo. Com sua partida, o local intensificou a realização de atividades como os cursos voltados para a sensibilização e educação ambiental. Pelas belezas naturais, o sítio cada vez mais têm atraído admiradores e turistas que desejam conhecer o trabalho excepcional realizado pelo ambientalista.
José Lutzenberger também deixou duas filhas. Lara, a mais nova e mais conhecida do público, dirige a Fundação Gaia. Sempre que pode está nos meios de comunicação para falar do trabalho pioneiro desenvolvido pelo pai e divulgar as atividades promovidas pela instituição na sede rural.  Lilly, a mais velha, é talvez quem mais tenha herdado os traços e a personalidade do ecologista. Semanalmente visita a empresa, orientando e acompanhando de perto o trabalho dos dois executivos que tocam o empreendimento desde os tempos do pai.Alegre e divertida, os mais próximos apontam nela o espírito agregador como uma de suas maiores características. Formada em biologia pela UFRGS, hoje se dedica com afinco à preservação e organização do imenso acervo deixado por Lutz, do qual fazem parte centenas de livros, revistas, dossiês contendo material sobre as principais lutas encabeçadas pelo ecologista ao longo de mais de três décadas, milhares de recortes de jornais e revistas, cartas, documentos, além dos livros de sua autoria.
Lilly trabalha há alguns anos neste material, preparando-o para ser doado ao “Delfos – Espaço de Documentação e Memória Cultural” da PUC-RS, um setor da Biblioteca da Universidade dedicado exclusivamente à guarda e preservação de acervos pertencentes a gaúchos ilustres. Um trabalho minucioso e exaustivo, o qual requer, além do conhecimento da trajetória de Lutzenberger, o domínio de 5 idiomas (português, inglês, alemão, francês e espanhol), uma vez que ele não só lia, como escrevia, falava e proferia palestras em todos estes idiomas.
Atualmente o acervo é mantido nas dependências da Empresa Vida, em Eldorado do Sul, pois a antiga Casa Lutzenberger encontra-se em pleno processo de restauração. Tendo sido tombado em 2011, o prédio, após a reforma, abrigará a nova sede administrativa da empresa. Na mesma, além de escritórios, haverá espaços dedicados à memória do ambientalista e de seu pai, também chamado José Lutzenberger, reconhecido arquiteto e artista plástico alemão radicado no Brasil, o qual, além de responsável por prédios importantes na capital gaúcha, como a Igreja São José, o Palácio do Comércio e o Orfanato Pão dos Pobres, construiu a Casa Lutzenberger, para a qual se mudou com a família em 1932 e onde viveu o filho ecologista até sua morte, em 2002.
Foi no pai artista plástico que o filho encontrou apoio e buscou inspiração desde cedo para suas incursões pelo mundo natural, como comprovam os diários deixados pelo primeiro. Neles, José Lutzenberger, o pai, escreve e enriquece com belas ilustrações o dia a dia dos filhos José Antônio, Magdalena e Rose, indicando o caminho que o filho seguiria no futuro, já que estava sempre envolto em atividades ligadas à fauna e a flora dos arredores de sua casa, na Rua Jacinto Gomes, no Bairro Bom Fim, escapando não raras vezes para os morros de Porto Alegre, de onde vinha carregado de exemplares para enriquecer o seu amplo jardim.
A arte de registrar em diários praticamente tudo o que acontecia com os filhos também migrou para a neta Lilly, que apesar de não dominar a arte dos desenhos, assim como o pai e o avô, domina brilhantemente a da escrita, mantendo, de forma organizada, em diários atualizados, tudo o que acontece com a família, guardando também em arquivos digitais as trocas de correspondências com a irmã e as tias, como demonstram alguns exemplares a que tive acesso. Esse não é, no entanto, um trabalho a ser tornado público, pelo menos por enquanto. São registros pessoais que tem como objetivo o registro de fatos e acontecimentos organizados por uma grande artista das palavras para preservar e dar continuidade à história da família a fim de que não se percam no espaço e no tempo. É um exercício solitário e cuidadoso, mas que pela riqueza de detalhes terá grande valor e reconhecimento na posteridade. E como num prenúncio do que pode ser a continuidade do trabalho realizado pelo arquiteto e artista plástico, que foi professor do Instituto de Artes da UFRGS, Heloísa, a filha mais velha de Lilly, desde o início de 2012, está cursando Artes Visuais na mesma instituição. Terá ela herdado os mesmos traços e o talento do bisavô? Só o tempo dirá!
Artigo publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre, Caderno Viver, página 5 – edição do dia 11 de maio de 2012.

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